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PINGA FOGO - Quando o sindicato vira herança de família

A soberba tem um efeito curioso: ela cria uma bolha onde o dirigente acredita que críticas são perseguições e sugestões representam ameaças

Há um velho ditado que diz que toda instituição nasce para servir a uma causa. Mas, em alguns casos, a causa acaba servindo à instituição. E, pior ainda, a quem acredita ser dono dela.


O que deveria ser um abrigo para trabalhadores, produtores e profissionais de um setor, em determinadas circunstâncias, parece ganhar ares de empresa familiar, onde o sobrenome pesa mais do que a competência, a permanência vale mais que a renovação e o interesse coletivo passa a disputar espaço com projetos estritamente pessoais.


É curioso observar como alguns dirigentes, depois de tantos anos ocupando a mesma cadeira, passam a confundir representatividade com propriedade. A mesa da presidência vira trono. O estatuto passa a ser interpretado conforme a conveniência. E qualquer voz divergente é tratada como afronta ao reino.


Enquanto isso, quem realmente sustenta a entidade com sua contribuição espera aquilo que sempre deveria ser prioridade: capacitação, orientação técnica, defesa dos interesses da categoria, acesso ao conhecimento, cursos profissionalizantes e oportunidades para fortalecer quem vive do setor.


Mas a realidade, muitas vezes, parece seguir outro roteiro.


Os eventos se tornam vitrines para discursos intermináveis. As redes sociais exibem fotos impecáveis da diretoria. As homenagens se multiplicam. Os aplausos são cuidadosamente selecionados. Porém, quando chega a hora de oferecer cursos, buscar parcerias, promover inovação ou defender os associados diante dos desafios do mercado, o silêncio costuma falar mais alto que qualquer pronunciamento.


A soberba tem um efeito curioso: ela cria uma bolha onde o dirigente acredita que críticas são perseguições e sugestões representam ameaças. A prepotência, por sua vez, fecha as portas para novas ideias e transforma colaboradores em meros figurantes de uma peça cujo protagonista jamais aceita dividir o palco.


E assim o sindicato deixa, pouco a pouco, de ser instrumento de transformação para se tornar uma estrutura voltada à autopreservação de um pequeno grupo.


A ironia é que nenhuma entidade existe por causa de seus dirigentes. São os associados que lhe dão legitimidade. São eles que justificam sua existência. Sem base, não há liderança. Sem participação, não existe representatividade.


Talvez esteja na hora de lembrar que cargos são passageiros, mas as instituições precisam permanecer fortes. E elas só permanecem fortes quando cumprem sua verdadeira missão: servir, ensinar, orientar e defender.


Porque sindicato não nasceu para fabricar vaidades.


Nasceu para construir oportunidades.


E toda vez que o ego ocupa o lugar da missão, quem paga a conta é justamente quem mais precisava ser representado.


Por: Alirio unior/JNHOJE

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